Haroldo Augusto Filho aponta o momento certo de adiar decisões

5 Min de leitura
Haroldo Augusto Filho

Em 1994, os economistas Avinash Dixit e Robert Pindyck demonstraram que esperar pode ter valor econômico mensurável, e Haroldo Augusto Filho, executivo da Fource Consultoria, com atuação em negociação empresarial, gestão de conflitos e estruturação de soluções em ambientes corporativos complexos, questiona, a partir dessa ideia, a crença de que adiar uma decisão é sempre sinal de fraqueza. No livro Investment under Uncertainty, os autores mostraram que, quando uma escolha é difícil de reverter e o cenário ainda é incerto, a possibilidade de aguardar novas informações funciona como uma opção, que se perde no momento em que se decide. Descubra adiante quando o adiamento é estratégia e quando é apenas hesitação.

O mito da decisão rápida como virtude

No ambiente corporativo, agilidade é frequentemente tratada como sinônimo de competência, e o gestor que pede mais tempo corre o risco de parecer inseguro. Essa associação faz sentido em decisões rotineiras e reversíveis, nas quais errar custa pouco e corrigir é simples. O problema surge quando a mesma lógica é aplicada a escolhas de grande impacto e difícil retorno.

Uma negociação societária, uma reestruturação ou um acordo de longo prazo com um parceiro estratégico pertencem a essa segunda categoria. Nelas, decidir antes de reunir informações essenciais pode cristalizar um erro por anos. Haroldo Augusto Filho aponta que a pergunta relevante não é quão rápido se decide, mas quanto custa voltar atrás caso a escolha se revele equivocada.

Haroldo Augusto Filho
Haroldo Augusto Filho

Quando esperar faz sentido

Três condições, combinadas, indicam que o adiamento pode ser a escolha mais racional. A primeira é a irreversibilidade: quanto mais difícil desfazer a decisão, maior o valor de esperar. A segunda é a existência de informação relevante a caminho, como um resultado trimestral, uma due diligence em andamento ou a definição de posição da outra parte. A terceira é que o custo da espera seja menor do que o risco de decidir mal.

Ausente qualquer uma dessas condições, o adiamento perde sustentação. Se nenhuma informação nova vai surgir, aguardar apenas prolonga a incerteza sem reduzi-la. Em processos negociais, Haroldo Augusto Filho reconhece ainda um benefício adicional da espera bem fundamentada: ela evita concessões feitas sob pressão de prazo, que raramente refletem o interesse real de quem as faz.

A diferença entre adiar e procrastinar

O adiamento estratégico tem características que o distinguem da simples hesitação. Ele é deliberado, possui um motivo explícito, identifica qual informação está sendo aguardada e define uma data ou um evento para a retomada. A procrastinação, por outro lado, não tem critério de encerramento e se alimenta do desconforto de escolher, e não da busca por dados.

Outro sinal de alerta aparece quando a espera passa a beneficiar apenas quem decide, e não a organização. Evitar uma conversa difícil com um sócio ou postergar o anúncio de uma mudança impopular são exemplos de adiamentos que agravam o problema. Diante desse quadro, Haroldo Augusto Filho descreve o padrão como uma transferência silenciosa de custo, em que a empresa absorve o desgaste que a decisão evitou enfrentar.

Como adiar sem perder o controle?

Um adiamento bem conduzido começa pela comunicação. As partes envolvidas precisam saber que a decisão foi postergada por um motivo específico e até quando, o que preserva a credibilidade de quem decide e evita leituras de indecisão. Somado a isso, é recomendável manter as alternativas abertas durante o período de espera, sem assumir compromissos que reduzam a liberdade de escolha. Por fim, vale registrar os critérios que orientarão a decisão quando o prazo vencer. Esse cuidado, como frisa Haroldo Augusto Filho, impede que a espera se estenda indefinidamente e permite avaliar, depois, se o adiamento cumpriu sua função. 

Compartilhe esse artigo