Justa causa em escritório de advocacia: o que a decisão do TRT revela sobre ética e conflito de interesses

Diego Velázquez
By Diego Velázquez 7 Min Read

A manutenção da justa causa de uma advogada que atuou em processos particulares contra cliente do próprio escritório empregador reacendeu um debate importante no meio jurídico: até onde vai a autonomia profissional e onde começa o dever de lealdade dentro das relações de trabalho na advocacia. O caso analisado pelo Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região traz reflexões relevantes sobre ética profissional, confiança entre empregador e empregado, sigilo estratégico e os impactos que atitudes incompatíveis podem gerar em escritórios de advocacia. Ao longo deste artigo, será discutido como decisões desse tipo influenciam o ambiente jurídico, quais riscos profissionais envolvem conflitos de interesses e por que a confiança continua sendo um dos pilares mais importantes da advocacia moderna.

A advocacia é uma atividade construída sobre credibilidade, discrição e compromisso ético. Diferentemente de outras profissões, o advogado lida diariamente com informações sensíveis, estratégias processuais e interesses que podem afetar diretamente empresas, patrimônios e reputações. Quando surge qualquer comportamento capaz de comprometer essa relação de confiança, o impacto costuma ultrapassar o aspecto contratual e atingir também a esfera ética e institucional.

Foi justamente esse entendimento que ganhou força na decisão do TRT ao validar a dispensa por justa causa da profissional. O ponto central não esteve apenas na atuação em processos particulares, mas no fato de a advogada ter representado interesses contrários aos de um cliente do escritório onde trabalhava. Em ambientes jurídicos corporativos, isso costuma ser interpretado como quebra de fidúcia, elemento essencial para a continuidade do vínculo empregatício.

O debate vai além da legalidade formal. Em muitos casos, profissionais acreditam que atuar em causas externas não representa problema, principalmente quando não existe cláusula expressa de exclusividade. Entretanto, a questão muda completamente quando há potencial conflito de interesses. Mesmo sem acesso direto a documentos estratégicos daquele cliente específico, a simples existência de uma atuação contrária pode gerar insegurança jurídica e desgaste institucional.

Essa situação se torna ainda mais delicada em escritórios empresariais de médio e grande porte. A relação comercial com clientes costuma envolver contratos duradouros, troca constante de informações confidenciais e construção de estratégias jurídicas complexas. Nesse cenário, a confiança não funciona apenas como valor subjetivo, mas como fundamento operacional do negócio jurídico.

O mercado da advocacia vem passando por transformações importantes nos últimos anos. O crescimento da concorrência, o avanço das lawtechs e a digitalização dos processos ampliaram a pressão sobre escritórios e profissionais. Paralelamente, aumentou também o rigor interno relacionado à governança corporativa, compliance e políticas de integridade.

Hoje, muitos escritórios já adotam códigos internos específicos para evitar conflitos de interesses, determinando limites claros para atuações paralelas dos colaboradores. Em alguns casos, qualquer processo externo precisa ser previamente comunicado à gestão. O objetivo não é restringir indevidamente a atuação profissional, mas proteger a integridade das relações jurídicas construídas pela banca.

A decisão do TRT reforça justamente essa tendência contemporânea. O Judiciário trabalhista tem demonstrado maior atenção a situações que envolvem quebra de confiança qualificada, especialmente em funções estratégicas ou que lidam com informações sensíveis. Na advocacia, isso ganha proporções ainda maiores porque o dever ético faz parte da própria essência da profissão.

Outro aspecto relevante está na percepção do cliente. Empresas contratam escritórios esperando segurança absoluta na defesa de seus interesses. Quando surge a notícia de que um integrante da equipe atua simultaneamente em demandas contrárias, o dano reputacional pode ser significativo. Mesmo que não exista prejuízo material imediato, a relação comercial pode ser comprometida pela perda de confiança.

Esse tipo de episódio também serve como alerta para jovens advogados e profissionais em início de carreira. A busca por crescimento financeiro e construção de carteira própria é legítima, mas exige cautela e planejamento. Muitos profissionais acabam assumindo demandas particulares sem avaliar adequadamente os riscos éticos envolvidos, principalmente quando já estão inseridos em estruturas jurídicas empresariais.

Na prática, a advocacia moderna exige não apenas conhecimento técnico, mas também inteligência relacional e consciência institucional. Saber administrar conflitos de interesse passou a ser competência indispensável para quem deseja construir carreira sólida no setor jurídico.

Além disso, o avanço das ferramentas digitais tornou muito mais fácil identificar vínculos processuais e atuações paralelas. Tribunais eletrônicos, bancos de dados públicos e sistemas integrados permitem cruzamentos rápidos de informações, aumentando a exposição de comportamentos incompatíveis com políticas internas de compliance jurídico.

A decisão do TRT também evidencia como a justa causa continua sendo medida extrema no Direito do Trabalho, mas plenamente aplicável quando há quebra grave de confiança. Em profissões que dependem diretamente de confidencialidade e lealdade, a tolerância judicial tende a ser menor diante de condutas consideradas incompatíveis com a natureza da função exercida.

Existe ainda um componente importante relacionado à ética profissional prevista pela Ordem dos Advogados do Brasil. O Estatuto da Advocacia estabelece deveres ligados à lealdade, boa-fé e preservação dos interesses do cliente. Embora cada situação exija análise individualizada, conflitos de interesse costumam receber atenção rigorosa justamente porque podem comprometer a credibilidade de toda a atividade jurídica.

O episódio analisado pelo TRT revela uma realidade cada vez mais presente no ambiente corporativo: reputação e confiança têm valor tão importante quanto competência técnica. No universo jurídico, onde estratégias, informações e interesses empresariais circulam diariamente, qualquer ruptura nessa relação pode gerar consequências profundas para profissionais e organizações.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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