Nas várzeas do Amazonas, juta e malva ainda garantem renda a milhares de famílias

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Alfredo Moreira Filho

Alfredo Moreira Filho, empresário cuja trajetória incluiu passagens por Itacoatiara e Manaus, avalia que a história da juta e da malva é um dos capítulos mais interessantes da agricultura amazônica, porque une imigração, adaptação ao ambiente e transformação econômica. Ao longo dos rios Solimões e Amazonas, a cheia anual transforma a paisagem e define o calendário de quem vive da agricultura de várzea.

As duas plantas, de origem estrangeira, tornaram-se, por décadas, a base de uma importante cadeia produtiva no Amazonas e no Pará. Entenda, ao longo deste artigo, como essas fibras chegaram à região, o que representaram para a economia local e quais desafios enfrentam hoje.

A chegada da juta pelas mãos de imigrantes japoneses

A juta é uma planta de origem asiática, cultivada tradicionalmente na Índia e em Bangladesh, cujas fibras são usadas na fabricação de sacarias e tecidos grossos. Sua introdução na Amazônia ocorreu na primeira metade do século passado, por meio de imigrantes japoneses que se estabeleceram no município de Parintins, no Amazonas.

O momento era delicado para a região. Com a queda da economia da borracha, lideranças políticas viam na chegada dos imigrantes e na nova cultura uma oportunidade de dinamizar a economia regional. A juta se adaptou bem às várzeas, áreas que ficam alagadas durante as cheias e recebem sedimentos que fertilizam o solo. No entendimento de Alfredo Moreira, a experiência demonstra como o conhecimento trazido de outras partes do mundo pode se transformar em alternativa econômica quando encontra condições favoráveis.

O auge de uma cadeia produtiva

As fibras de juta eram fundamentais para a fabricação dos sacos usados no transporte e armazenamento de produtos agrícolas, como o café. Com a demanda crescente, a produção se espalhou pelas várzeas do Amazonas e do Pará, e surgiram indústrias de beneficiamento e tecelagem em cidades como Manaus, Parintins, Manacapuru, Belém, Santarém e Castanhal.

Itacoatiara também esteve entre os municípios produtores. Em seu auge, em meados do século passado, a atividade chegou a envolver mais de 60 mil famílias das áreas de várzea dos dois estados, sem contar os trabalhadores das fábricas. Com o tempo, a malva, planta nativa com fibra semelhante, passou a substituir a juta em grande parte das lavouras. Segundo Alfredo Moreira Filho, poucos produtos tiveram papel tão marcante na economia ribeirinha da Amazônia quanto essas fibras.

Declínio e permanência

A partir da década de 1970, a cadeia entrou em declínio. A concorrência de fibras sintéticas, mais baratas e resistentes, reduziu a demanda por sacarias de juta, e o Brasil voltou a importar a fibra. A falta de investimentos em pesquisa e na produção de sementes contribuiu para o enfraquecimento da atividade.

Ainda assim, a produção não desapareceu. Estudos da Embrapa indicam que a juta e a malva continuam sendo fonte de renda para cerca de 15 mil famílias ribeirinhas no Amazonas, especialmente durante o período das cheias. Em comunidades de Manacapuru e de outros municípios, juticultores mantêm a tradição, cortando as hastes em áreas já alagadas e deixando as fibras de molho na água antes de separá-las. No entendimento de Alfredo Moreira, a persistência dessas famílias revela a capacidade de adaptação de quem vive no ritmo dos rios.

Desafios e novas oportunidades

O trabalho na juta e na malva é pesado e muitas vezes realizado dentro da água, em condições difíceis. Pesquisadores apontam que o sistema produtivo pouco mudou desde sua introdução e que a comercialização depende fortemente de intermediários, o que reduz a remuneração dos produtores.

Por outro lado, a busca por materiais sustentáveis e biodegradáveis abre novas possibilidades para as fibras naturais, que podem ser usadas em embalagens ecológicas, tecidos, artesanato e até componentes da indústria automotiva. Investimentos em mecanização de etapas, organização de cooperativas e valorização da origem amazônica podem dar novo fôlego à cadeia. À luz do que frisa Alfredo Moreira Filho, transformar uma tradição centenária em oportunidade depende de unir conhecimento técnico, gestão e respeito ao modo de vida das comunidades da várzea.

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